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Governos Digitais no NE: Os Mapas Estratégicos para a Transformação da Gestão Pública

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    Pernambuco Transparente
  • há 5 dias
  • 10 min de leitura

Atualizado: há 7 horas

Esqueça as filas intermináveis e o excesso de papel. O Nordeste brasileiro está vivendo uma virada de chave silenciosa, mas profunda: a digitalização da máquina pública. Enquanto capitais como Fortaleza, João Pessoa e Recife se consolidam como hubs de inovação, o desafio agora é levar essa eficiência para os mais de 1.700 municípios da região. Neste post, vamos abrir a 'caixa-preta' dos planos de Governo Digital para os próximos anos e entender como o seu celular vai se tornar a principal porta de entrada para o Estado, transformando burocracia em cliques.


O crescimento do portal Gov.br e a evolução das plataformas estaduais no Nordeste representam o maior movimento de desburocratização da história recente do país. O que começou como um portal de serviços federais transformou-se na identidade digital única do brasileiro, servindo como uma "chave mestra" que igualmente abre as portas de estados e municípios. O Gov.br não é mais apenas um website: é um ecossistema. Em 2026, a integração atingiu níveis profundos, através da qual o cidadão utiliza o mesmo 'login ouro ou prata' para matricular um filho na rede estadual da Bahia ou emitir uma nota fiscal de serviço em Pernambuco. Essa unificação reduziu drasticamente o custo de aquisição de usuários para os estados, que deixaram de gastar com infraestruturas próprias de autenticação para focar na entrega final do serviço.


Tal realidade não veio com mágica: afinal, desde 2019 a Rede Nacional de Governo Digital arquiteta e alimenta essa tendência, semeando um terreno onde a troca de experiências entre secretarias de administração permite que mesmo em nível local de estados menores, como Alagoas e Sergipe, sejam implementadas plataformas dinâmicas de serviços tão robustas quanto as de metrópoles, reduzindo custos operacionais e o tempo de resposta aos cidadãos e cidadãs.


  • O Salto das Plataformas Estaduais


Os estados do Nordeste entenderam que a autonomia digital é o novo federalismo. Plataformas como o Ceará Digital, o Pi.Gov e o Paraíba Digital deixaram de ser apenas "listas de links" para se tornarem balcões de atendimento transacionais. Frequentemente, figuram até no topo do Índice de Oferta de Serviços Públicos Digitais da ABEP-TIC (Associação Brasileira de Entidades Estaduais e Públicas de Tecnologia da Informação e Comunicação), superando muitos estados do Sul e Sudeste, atestando que o Nordeste brasileiro é um protagonista da inovação pública no país. Enquanto o senso comum ainda associa a região a processos burocráticos lentos, o cenário de 2026 mostra estados que saltaram etapas, aprendendo com os erros de projetos pioneiros e implementando soluções nativas de alta eficiência.


Governo Estadual do PI: 100% Digital e campeão nacional em transformação digital no Índice Abep-TIC 2025
Governo Estadual do PI: 100% Digital e campeão nacional em transformação digital no Índice Abep-TIC 2025

Líder inconteste, o Governo do Piauí, por meio da Secretaria da Segurança Pública (SSP-PI) por exemplo, está investindo de forma estratégica em tecnologia para modernizar o sistema de segurança e combater a criminalidade, inclusive em parceria com universidades, testando soluções. De acordo com o diretor de Inteligência da SSP (delegado Anchieta Nery), o diferencial do órgão está em melhorar e valorizar ferramentas básicas (antes de apostar em grandes equipamentos tecnológicos), colocando-as à disposição das equipes policiais. O Lupa App (um aplicativo que coloca na mão do policial uma série de informações), como destaca Anchieta, é uma amostra.


O Piauí, todavia, ganhou destaque nessa seara com o 'BO Fácil', primeiro serviço do Brasil de registro de boletim de ocorrência pelo WhatsApp. A ferramenta permite que o usuário possa enviar áudio ou mensagem para registrar o boletim de ocorrência, fazer denúncia anônima ou ainda para solicitar socorro, acionando o número 190. No seu primeiro dia de funcionamento, o 'BO Fácil' registrou 1.400 contatos.



Se impressiona na segurança, foi na saúde que o estado ganhou notoriedade nacional e internacional, com o programa 'Piauí Saúde Digital', política pública finalista do 'Prêmio Excelência em Competitividade 2025' do Centro de Liderança Pública. A organização suprapartidária criou o Prêmio em 2015 para reconhecer políticas públicas estaduais com alto potencial de impacto nos indicadores que compõem seu Ranking de múltiplas áreas. Em 2025, o CLP recebeu um recorde de 333 inscrições e o programa consagrou-se o campeão nacional no setor.


Lançado em 2023, ele amplia o acesso à saúde por meio da telemedicina, utilizando inteligência artificial e internet das coisas (IoT). Já alcançou mais de 1,2 milhão de atendimentos e cobertura em todos os 224 municípios, reduzindo filas e evitando deslocamentos, com presença adicional em escolas e unidades prisionais estaduais. Atende 12 especialidades médicas por meio de aplicativo e salas municipais, impulsionando a atenção básica (permitindo a renovação de receitas, solicitação de exames e encaminhamentos para outras especialidades ou serviços, quando necessário). O resultado? Cerca de 80% dos casos são resolvidos sem a necessidade de idas ao hospital.



Se por um lado os governos aceleraram a digitalização para facilitar o acesso aos serviços, o próximo grande salto — e a tendência absoluta para 2026 — é o 'Governo Proativo'. Em vez de o cidadão precisar 'ir até o Estado' para renovar uma habilitação ou solicitar um auxílio, a tecnologia inverte essa lógica: o Estado utiliza a inteligência de dados e a interoperabilidade para antecipar demandas. No Nordeste, essa evolução já se manifesta em sistemas que enviam notificações personalizadas sobre o período de matrícula escolar, o calendário de vacinação baseado na idade, índice de preços para compras mais econômicas, ou a proximidade do vencimento de tributos com descontos e de envio do boleto de IPTU por WhatsApp.


Essa "antecipação" não apenas reduz a carga burocrática sobre o indivíduo, mas transforma a percepção pública, fazendo com que o governo deixe de ser um balcão de exigências para se tornar um assistente pessoal de cidadania. O sistema avisa ao cidadão que o documento vai vencer ou que ele tem direito a um benefício, eliminando a convenção de o usuário procurar o Estado (o chamado 'foco em Experiência UX').


A capital pernambucana, Recife, é, sem dúvidas, um dos maiores "cases" de sucesso quando falamos em levar a transformação digital para a ponta, onde o cidadão mais precisa: a saúde pública. A Prefeitura estabilizou uma rede de saúde inteiramente digital integrada pelo ecossistema Conecta Recife e opera com a tendência proativa - o sistema identifica, por exemplo, crianças que estão com o ciclo vacinal incompleto e gera alertas tanto para os agentes de saúde como para os pais através do aplicativo municipal. É a tecnologia convertendo os processos de gestão da saúde de um padrão "reativo" (esperar a doença) para um "preventivo" (monitorar o cidadão).


Com uma das empresas públicas de TI mais longevas e estruturadas do Brasil (a EMPREL, constituída na época do surgimento da internet por volta da década de 1970), a Prefeitura foi adiante, e em três anos, a partir da formação uma rede de colaboração interna com dezenas de servidores (a 'Rede de Transformação Digital'), conseguiu instituir uma Estratégia de Transformação Digital (Decreto Nº 34.737, de 2021) e tornar-se a primeira capital brasileira a fazer uso do Marco Legal das Startups. Assim, hoje, o Recife estimula que startups desenvolvam soluções para problemas a serem enfrentados pela gestão pública por meio dos 'Ciclos de Inovação Aberta', concursos que tiveram três edições desde 2022.


Sem tardar, em 2025 a Prefeitura foi duplamente premiada no 4° Congresso Latino-Americano de Casos de Open Innovation Week (que ocorreu dentro do Rio Innovation Week, maior conferência global de tecnologia e inovação), ao vencer em duas categorias com iniciativas que reforçam o protagonismo da capital pernambucana na transformação digital: a Caderneta Digital da Criança do Recife (na categoria Infraestrutura e Cidades), e o Absens – Inovação Aberta para Redução do Absenteísmo na Saúde Pública (na categoria Saúde). 




  • Os Três Pilares da Estratégia Digital


A espinha dorsal dessa transformação repousa em três conceitos fundamentais: Cidadania Digital, Interoperabilidade e Infraestrutura. O foco "Digital-First" ('Digital na Origem' ou 'Digital por Padrão') garante que o serviço nasça para ser resolvido na palma da mão, eliminando a obrigatoriedade de deslocamentos físicos. Entretanto, a verdadeira mágica acontece nos bastidores através da interoperabilidade, permitindo que as bases de dados de saúde, educação e segurança "conversem" entre si, poupando o cidadão de reapresentar documentos que o Estado já possui. Tudo é sustentado pela expansão acelerada da fibra ótica e do 5G que adentram o interior, garantindo que o "Governo na Nuvem" não fique restrito às capitais litorâneas.


Mas, como isso é planejado e orquestrado?


  • As Estratégias de Governo Digital


Os debates relativos à construção da Estratégia Nacional de Governo Digital são uma ação alinhada às determinações da Lei nº 14.129/2021 e do Decreto Nº 12.198/2024 (que tratam dos princípios, regras e instrumentos para o Governo Digital e o aumento da eficiência pública no Brasil). A ENGD nacional, sancionada justamente nos últimos anos, orienta como cada ente federado (Estados e Municípios) pode elaborar sua própria estratégia, mas mantendo alinhamento mínimo ao plano federal. Como determina a lei, cada ente poderá editar a sua estratégia, no âmbito de sua competência, buscando a sua compatibilização com a federal e a de outros entes.


O Governo Federal lançou sua mais recente ENGD durante uma Caravana Federativa, em Teresina (PI), em junho de 2024. Na ocasião, o presidente da República (Luiz Inácio Lula da Silva), e a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (Esther Dweck), assinaram o decreto que estabelece o planejamento na área até 2027. Uma das novidades para a implantação da atual estratégia foi uma linha de crédito em parceria com a Caixa, na carteira de Financiamentos à Infraestrutura e ao Saneamento (FINISA), a 'FINISA Transformação Digital' que teve orçamento total de até R$ 8,2 bilhões em 2024.


O Piauí foi escolhido para a oficialização da Estratégia Nacional por se sobressair na implementação de ações relacionadas à transformação digital. Até então era o estado que tinha emitido, proporcionalmente, mais Carteiras de Identidade Nacionais (CIN) no novo formato digital. O tempo passou e só provou que a escolha foi certeira.



“A Estratégia do Governo Digital tem o objetivo número um: que os municípios e os estados estabeleçam essa estratégia única. Apenas 40% dos estados têm estratégia de Governo Digital e o Piauí é um deles. Os municípios, no máximo, têm um plano de TI (Tecnologia da Informação). E a gente fez uma estratégia, que é a Estratégia da Estratégia, como a gente chama, para que todos possam caminhar juntos com o Governo Federal, na mesma direção”, esclareceu na ocasião a Ministra do MGI, Esther Dweck.

Vale destacar que para enraizar a implantação dessa estratégia, o governo federal vai utilizar a Rede Nacional de Governo Digital GOV.BR, o mencionado espaço colaborativo de articulação do governo federal com gestores públicos estaduais, municipais e distritais para facilitar a gestão no avanço da agenda de transformação digital nos quatro cantos do Brasil. Com a adesão, os governos podem utilizar, sem custos, ferramentas tecnológicas desenvolvidas pela União (como as do Programa Nacional de Processo Eletrônico/ProPEN), no âmbito da plataforma de relacionamento do Estado com o cidadão, o GOV.BR.


Além disso, a rede propicia a troca de conhecimento sobre tecnologias e estratégias, o que acaba se tornando um atalho para que todos possam arrojar sua própria transformação digital local. Com o apoio da Rede, os entes podem realizar um autodiagnóstico do grau de maturidade digital (e, claro, se integrarem à plataforma GOV.BR, utilizando também o login único). Dessa forma, intensificam a digitalização dos serviços públicos voltados ao cidadão - como é o caso da Prova de Vida Digital e da assinatura eletrônica - reduzindo o tempo de espera, ofertando maior clareza e transparência de informações, atrelando redução significativa de custos e confiabilidade.


A Consolidação do Gov.br como Eixo Central

Bons planejamentos evidentemente, têm seu valor a partir do que de fato geram, por isso, é fundamental refletir, de tempos em tempos, seus efeitos, como aconselhou o notório estadista britânico Winston Churchill (1874-1965): "Por mais brilhante que a estratégia seja, você deve sempre olhar para os resultados". Não gratuitamente, os normativos legais das Estratégias locais costumam prever um prazo máximo determinado para sua reavaliação (assim como a EGD federal), visando à garantia da execução das metas estratégicas, táticas e operacionais. Há uma página oficial que trata especificamente da Estratégia de Governo Digital expondo a listagem e a descrição dos princípios, objetivos e iniciativas.


É algo interessante observar pelo website, pois ele apresenta um acompanhamento das iniciativas, marcando como “Concluída” aquelas que foram implementadas. Um bom exemplo seguido, por enquanto, apenas pelos estados da Bahia, Ceará e Piauí, com conteúdo exclusivo em seus portais oficiais apenas para detalhamento e compreensão de suas estratégias digitais. Salienta-se, ademais, a criação de instâncias colegiadas de caráter deliberativo e consultivo, como Conselhos especiais que auxiliarão a manutenção do compromisso com o ritmo das ações previstas e a garantia dos projetos. Eles devem otimizar as decisões (ou revisões) de gestão, monitorando os custos e a coordenação e capacitação dos servidores para as tarefas complexas.


Governo do Piauí disponibiliza portal exclusivo para acompanhamento da Estratégia de Governo Digital
Governo do Piauí disponibiliza portal exclusivo para acompanhamento da Estratégia de Governo Digital

Graças à utilização do universo contemporâneo de tecnologias, como inteligência artificial, big data e blockchain, a transformação digital dos governos vem abrindo espaço para a dissolução dessa “antipatia” generalizada contra o Estado, além de uma nova concepção da relação entre governos e seus cidadãos. Por fim, as Estratégias trazem no bojo um desejo antigo da sociedade civil: o pilar da abertura de dados. Sim, eles mesmos, os tão cobiçados 'dados abertos', que deverão ser alvo de Planos reservados.


O horizonte presente para o Nordeste, portanto, é promissor, e os prêmios realçam que a região não está apenas acompanhando o mundo, mas influenciando em diversas frentes da gestão pública. Contudo, é essencial manter a autocrítica: nada disso, óbvio, seria possível sem conectividade e um avanço real sobre as desigualdades. Um serviço proativo é invisível para quem não tem sinal ou para quem o custo do dado ainda pesa no bolso. Esse é um desafio de uma profundidade imensa (e antiga) que está sendo enfrentado pelos novos editais de infraestrutura, mas que, pela sua complexidade, merece uma análise exclusiva. Por ora, cabe pontuar que o Tribunal de Contas da União (TCU) fiscaliza de perto a questão, e mesmo o Maranhão, o pior da Região, assinou parceria com o Governo Federal esta semana para o desenvolvimento de uma Infovia robusta e inclusiva.



Confira as Estratégias dos Estados e das Capitais:


Alagoas (apenas Decreto) | Bahia | Ceará | Maranhão (apenas Decreto) | Paraíba | Pernambuco | Piauí | Rio Grande do Norte (apenas Decreto) | Sergipe (apenas Decreto)


Aracaju | João Pessoa | Maceió | Natal | Recife (+ portal da SECTI) | São Luís | Salvador | Teresina





*Texto por Raquel Lins. Criadora do Nordeste Transparente, é Bacharel em Ciência Política com ênfase em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Pernambuco. É especialista em Planejamento e Gestão Pública pela Universidade de Pernambuco e possui MBA em Auditoria e Inovação no Setor Público pela FEA-USP/IRB (2024). Atua em temas relacionados à promoção da transparência e integridade governamental, governo aberto, controle e inovação em políticas públicas - tendo desenvolvido experiência prática ao longo de uma década através da criação do projeto pioneiro Pernambuco Transparente em 2018, visando estimular a compreensão do assunto pela sociedade, e como um de seus resultados, lançado o portal Dados Abertos Pernambuco, plataforma com amplo acervo didático sobre o universo da abertura de dados e reconhecida com voto de aplauso pela Câmara Municipal do Recife. 



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A Rede Cidade Digital (RCD) é uma iniciativa de estímulo ao surgimento de localidades conectadas e eficientes no Brasil. Realiza em parceria com Prefeituras, desde 2012, eventos gratuitos para prefeitos, gestores e servidores públicos pelo país, como forma de fomentar o investimento em governos digitais e mais eficientes, melhorando o atendimento municipal e propiciando condições de desenvolvimento socioeconômico. Seus webinars, Fóruns Regionais e Congressos de Cidades Digitais e Inteligentes acontecem mensalmente em diversos Estados brasileiros com o objetivo de promover o compartilhamento de experiências entre os municípios e o acesso a diversas soluções inovadoras desenvolvidas e implantadas no país. Selecionamos alguns virtuais:



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