NE Transparente inicia Mapeamento de Iniciativas de Resiliência e Prevenção de Desastres Climáticos na Região - Participe!
- Pernambuco Transparente
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Atualizado: há 5 dias
Neste final de semana, o Nordeste foi assolado por chuvas devastadoras que atingiram níveis históricos, particularmente nos estados de Pernambuco e da Paraíba. Na Paraíba, em diversas cidades, o acumulado de precipitação registrou a maior proporção dos últimos 30 anos para um curto período, transformando ruas em rios, causando deslizamentos e deixando um rastro de destruição e desabrigados. As chuvas históricas afetaram mais de 37.402 mil pessoas em todo o estado, segundo informações oficiais divulgadas neste domingo, que apontaram que cerca de 2.400 famílias estão desalojadas, além de 895 pessoas desabrigadas, afora duas mortes confirmadas.
Em Pernambuco, a perspectiva é mais crítica. Segundo a Defesa Civil estadual, seis pessoas morreram e cerca de 9,4 mil tiveram que deixar suas casas — sendo 7,7 mil desalojadas e 1,6 mil desabrigadas. Ao todo, 27 municípios relataram ocorrências relacionadas às chuvas, com destaque para cidades ao norte da Região Metropolitana do Recife (Olinda, Abreu e Lima) e da Zona da Mata (sobretudo, Goiana). De acordo com o Corpo de Bombeiros, a maioria das mortes foi causada por deslizamentos de terra. Entre as vítimas estão três crianças, incluindo um bebê de seis meses. Diante da circunstância, o Governo Estadual decretou situação de emergência nos municípios atingidos, medida que facilita a liberação de recursos e canaliza as ações de assistência. Mais de 900 resgates foram realizados e 29 abrigos abertos para acolher famílias desalojadas.
No estado, as cidades com maior quantidade de pessoas desabrigadas (que perdem a moradia e dependem de abrigos públicos) são Goiana (146), Olinda (400) e Recife (671). Ainda em dezembro de 2025, vale notar, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), por meio da 1ª Promotoria de Justiça Cível de Goiana (assinada pela promotora Patrícia Ramalho de Vasconcelos), recomendou ao prefeito do município para que adotasse medidas efetivas de contenção dos gastos públicos com eventos festivos, adotando critérios de razoabilidade e proporcionalidade, e redirecionasse os recursos para áreas consideradas essenciais, como saúde, educação e assistência social. A recomendação foi formulada no âmbito de procedimentos administrativos instaurados para apurar o aumento expressivo das despesas municipais com festividades nos últimos anos: um crescimento contínuo das despesas com eventos, que alcançaram R$ 31,3 milhões em 2023, R$ 64,8 milhões em 2024 e ultrapassaram R$ 89,9 milhões em 2025, até novembro.
Por sua vez, o quadro da cidade mais impactada na Paraíba, Bayeux, localizada na Região Metropolitana de João Pessoa e vizinha à capital, evidencia que o contexto climático que iremos atravessar exige toda mobilização de esforços e sensibilização da sociedade de modo sem paralelo na história. Há três semanas, chuvas fortes causaram transtornos na cidade, alagando tudo (conforme vídeo abaixo), mesmo assim, não houve avanço do preparo para evitar a calamidade de agora. Com apenas 27,705 km² de extensão (IBGE), o município ainda tem uma importante área representativa do ecossistema de manguezal, com grande relevância para a preservação da fauna e da flora ameaçadas, resistindo no estuário do Rio Paraíba. Em torno de 60% do território de Bayeux permanece constituído de manguezais e resquícios de Mata Atlântica, como a Unidade de Conservação Estadual da Mata do Xem-Xem (com 181,22 hec).
A Prefeitura, por meio da Secretaria de Assistência Social e Segurança Alimentar, distribuiu mais de 2 mil quentinhas às famílias atingidas pelas fortes chuvas no município, até este sábado (2). A ação contou com o suporte do Restaurante Popular e a parceria com o Banco de Alimentos, garantindo alimentação diária às pessoas em vulnerabilidade nas comunidades ribeirinhas. As famílias afetadas já foram cadastradas no programa de aluguel social e inseridas nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) de seus territórios, onde passam a ser acompanhadas por meio do Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF), que deverá assegurar auxílio contínuo neste período. A iniciativa integra a força-tarefa iniciada ainda na última quarta-feira (29), que segue há mais de 72 horas com equipes mobilizadas de forma ininterrupta nas áreas afetadas.
Na Paraíba, os maiores impactos concentram-se nos municípios de Bayeux, Rio Tinto, Mamanguape, Sapé, Ingá, João Pessoa e Cabedelo. O Corpo de Bombeiros informou que fez 471 atendimentos, com mais de 171 ocorrências e 219 ações assistenciais. Também foram resgatadas 349 pessoas. No total, foram mobilizados 746 militares, além de viaturas, embarcações e aeronaves em várias cidades paraibanas. O Ministério Público da Paraíba (MPPB) instituiu, no sábado (2/05), um gabinete de crise para coordenar a atuação institucional perante os impactos das fortes chuvas que atingem o estado.
Ao passo que o cenário de calamidade socioambiental se instala, a atuação preventiva e robusta por parte dos governos estaduais e municipais não transparece como uma realidade consolidada, falhando em mitigar os impactos de eventos climáticos extremos que se tornam cada vez mais frequentes. O contraste entre a tragédia e as prioridades de gestão torna-se ainda mais evidente com o surgimento de novas plataformas e levantamentos que alertam para os gastos elevados com festas e eventos comemorativos, enquanto parte significativa da população carece de um mínimo de segurança habitacional e infraestrutura básica para enfrentar as intempéries. Como reconheceu a própria governadora de Pernambuco, "não adianta (mais) dizer que o desastre foi natural".
Não gratuitamente, a Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe) aprovou, em março de 2026, uma orientação para estabelecer um teto de R$ 350 mil para cachês de artistas contratados com recursos próprios pelas prefeituras pernambucanas. Essa medida busca conter a escalada de preços em eventos como o São João e o Carnaval, sendo uma referência recomendada para os gestores municipais. De acordo com levantamento da Amupe, 149 prefeitos participaram da pesquisa e 143 concordaram com o tabelamento como referência para as contratações (o valor, no entanto, não será obrigatório).
Avaliando a conjuntura de urgência e da clara necessidade de fortalecer as respostas locais, o Nordeste Transparente, projeto lançado há um ano com foco na região (conheça os propósitos aqui), introduz uma diligência crucial: um mapeamento de iniciativas da sociedade civil voltadas à prevenção e resiliência para situações de emergência climática. O objetivo é oferecer um espaço de divulgação para projetos e estratégias já existentes, agregando-se a conteúdos que em breve ganharão seções temáticas dedicadas no portal. Acreditamos que a colaboração e a transparência são fundamentais para construir comunidades mais seguras e preparadas.
| Como Participar do Mapeamento
Convidamos organizações, coletivos e cidadãos a enviarem suas iniciativas. Basta enviar um resumo (uma página de texto é suficiente) contendo:
Nome da Iniciativa
Local de Atuação (Cidade/Estado)
Forma de Atuação (ex: educação climática, sistemas de alerta, intervenções urbanísticas como jardins comunitários, infraestrutura local, readequação da escala de trabalho da empresa, etc.)
Presença em Redes Sociais (links)
Detalhes de Contato (nome, e-mail, telefone)
Encaminhar pelo formulário de contato na parte inferior do website ou pelo e-mail transparentenordeste@gmail.com ✅
Envie sua contribuição e ajude a ampliar o conhecimento e a capacidade da rede de resiliência climática no Nordeste!


*Texto por Raquel Lins. Criadora do Nordeste Transparente, é Bacharel em Ciência Política com ênfase em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Pernambuco. É especialista em Planejamento e Gestão Pública pela Universidade de Pernambuco e possui MBA em Auditoria e Inovação no Setor Público pela FEA-USP/IRB (2024). Atua em temas relacionados à promoção da transparência e integridade governamental, governo aberto, controle e inovação em políticas públicas - tendo desenvolvido experiência prática ao longo de uma década através da criação do projeto pioneiro Pernambuco Transparente em 2018, visando estimular a compreensão do assunto pela sociedade, e como um de seus resultados, lançado o portal Dados Abertos Pernambuco, plataforma com amplo acervo didático sobre o universo da abertura de dados e reconhecida com voto de aplauso pela Câmara Municipal do Recife.
[+ Currículo Lattes]
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| Entenda Melhor o Volume Elevado de Chuvas e o novo Contexto Climático
As fortes chuvas que atingem a Paraíba e o Grande Recife (Pernambuco) neste início de maio de 2026 são causadas principalmente pela atuação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). Este fenômeno, comum nesta época do ano, funciona como um corredor de nuvens carregadas de umidade e calor, posicionado sobre o litoral do Nordeste. Ou seja, é o principal sistema, agindo intensamente sobre a costa paraibana e pernambucana, gerando grandes volumes de chuva. Por que a ZCIT está sendo cada vez mais devastadora? O aquecimento dos oceanos é justamente uma das respostas, como esclarece a meteorologista da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), Aparecida Fernandes, em entrevista à Folha PE:
"O que faz tudo isso se intensificar mais ainda é que as águas do oceano aqui próximo da costa leste, indo do Rio Grande do Norte até Pernambuco, estão com temperaturas próximas de 30ºC. Isso equivale a quase um grau acima da temperatura média do período, provocando mais evaporação do que o normal. O combustível da nuvem é calor e umidade e, com o oceano mais quente, há bastante vapor d'água", completa.
Devido às chuvas, equipes da Defesa Civil Nacional chegaram aos estados neste final de semana para garantir apoio aos municípios atingidos. Os técnicos devem orientar as prefeituras sobre o reconhecimento federal de situação de emergência, além da solicitação de recursos para assistência humanitária, restabelecimento e reconstrução. Meteorologistas alertam para a continuidade das chuvas nos próximos dias, o que mantém o risco de novos alagamentos e deslizamentos. Autoridades recomendam que moradores de áreas de risco busquem abrigo seguro e acompanhem os alertas da Defesa Civil - que funcionaram para a população com celular. Segundo a Agência Brasil, os avisos abrangem a Região Metropolitana do Recife, o Agreste e a Zona da Mata pernambucana, além das regiões da Mata Paraibana, Agreste e Borborema, na Paraíba. Sem perdas humanas noticiadas, chuvas em volume histórico ocorreram de maneira similar em Fortaleza (CE).
Por fim, cabe ressaltar que relatos de violações de direitos, problemas em abrigos, falta de atendimento essencial, discriminação, violência, desinformação ou irregularidades podem ser encaminhados aos canais institucionais do Ministério Público estaduais da Paraíba e de Pernambuco, pelos canais de ouvidoria. O monitoramento sanitário também deve ser intensificado para prevenir doenças comuns após enchentes, como leptospirose e doenças diarreicas.



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