Certificação de Maturidade em Auditoria Interna (IA-CM) avança nas Controladorias Estaduais do Nordeste
- Pernambuco Transparente
- 20 de nov. de 2025
- 8 min de leitura
O 'IA-CM (Internal Audit Capability Model)' é um modelo global de maturidade para auditoria interna, desenvolvido pelo IIA (The Institute of Internal Auditors) com apoio do Banco Mundial, para ajudar organizações, especialmente no setor público, a avaliar e aprimorar sua função de auditoria, focando em 5 níveis de capacidade, 6 elementos de auditoria e 41 áreas de processos (KPAs) para agregar valor através de governança, gerenciamento de riscos e controles internos. O IIA Brasil é a associação que promove o modelo no Brasil, que atende à 'Estrutura Internacional de Práticas Profissionais' para auditores (conhecida como 'IPPF'), fornecendo capacitação e certificação, alinhando as práticas nacionais às normas internacionais.
Lançado em 2009 e atualizado posteriormente em 2017, é um framework internacionalmente reconhecido que identifica os fundamentos necessários para uma auditoria interna efetiva, de modo a atender às necessidades da administração da organização e às expectativas profissionais da função - é um modelo universal baseado em práticas líderes que podem ser aplicadas globalmente. O IA-CM se presta a ser uma ferramenta estratégica, uma estrutura para autoavaliação e avaliações externas e um roteiro para melhoria e escalamento ordenados. Atualmente, é a ferramenta estratégica nacional recomendada aos membros do Conselho Nacional de Controle Interno (CONACI), com a visão de fortalecer a atividade de auditoria interna governamental no Brasil, mediante Parceria estabelecida desde 2014 entre o Conaci e o Banco Mundial.
Ainda que concentre a região com maior quantidade de estados do país (cada um com suas particularidades e dificuldades), o aprimoramento das instituições da Região Nordeste segue muito próximo do ritmo nacional, embora sua conjuntura histórica torne mais difícil evidenciar com mais clareza esse progresso. Mas, é um avanço se traduz diretamente na otimização dos serviços oferecidos ao cidadão. Com uma auditoria interna mais estruturada, é possível apontar riscos, detectar problemas e recomendar soluções com mais agilidade. Isso contribui, por exemplo, para o acompanhamento adequado de obras de escolas e unidades de saúde, para a execução mais segura de contratos de fornecimento, e o controle mais eficiente de programas sociais e projetos de infraestrutura - garantindo cumprimento de prazos, qualidade e uso responsável dos recursos.
Neste mês de novembro, a Secretaria de Estado de Transparência e Controle (STC) do Maranhão, por meio da Auditoria Geral do Estado (AGE/MA), acaba de ser certificada no Nível II do Modelo de Capacidade de Auditoria Interna (IA-CM), somando-se a um seleto grupo de controladorias estaduais que conseguiram essa validação externa que comprova que a auditoria interna estadual alcançou padrões reconhecidos internacionalmente. "Na prática, isso significa que o Estado passa a contar com auditorias independentes e preventivas, mais organizadas, capazes de identificar falhas e irregularidades antes que causem impactos à sociedade", esclarece notícia oficial.

Para a Auditora-Geral do Estado, Luana de Jesus Pereira, essa conquista representa um marco histórico para o Maranhão:
“Ela reafirma o compromisso permanente da nossa equipe com a profissionalização, a integridade e a governança pública. O Nível 2 não é apenas um reconhecimento técnico: simboliza o amadurecimento das nossas práticas, a estruturação de nossos processos e o esforço coletivo de cada auditor que, com dedicação e competência, tem contribuído para fortalecer o sistema de controle interno do Estado. Essa validação reforça que estamos no caminho certo, construindo uma auditoria cada vez mais robusta, colaborativa, orientada a resultados e à agregar valor”, destaca.
É importante ressaltar que a certificação também fortalece a transparência pública ao exigir processos bem documentados e relatórios de acompanhamento que podem ser compartilhados com gestores e com a sociedade. Dessa forma, o cidadão tem mais clareza sobre a aplicação dos recursos e pode exercer melhor o chamado controle social, o que de maneira geral igualmente contribui para elevar o nível de confiança na atuação das instituições públicas que adotam o modelo.
Pelo menos metade das controladorias estaduais brasileiras já alcançaram o Nível 2 do Modelo de Capacidade de Auditoria Interna (IA-CM), sendo quatro somente da própria região Nordeste, o que torna notória a expertise e o patamar da região: além da maranhense, a Controladoria-Geral do Estado da Paraíba, a Controladoria e Ouvidoria Geral do Estado (CGE) do Ceará e a Auditoria Geral do Estado (AGE) da Bahia (todas certificadas em evento do CONACI em março de 2024). A Controladoria do Distrito Federal foi a primeira a obtê-la, ainda no ano de 2017, com sua revalidação em 2025. O projeto do IA-CM começou a ser implementado na CGDF em 2015, integrando o Plano Estratégico Institucional, permitindo o alcance do Nível II em maio de 2017. Somente anos depois, em 2022, houve a segunda, pela de Goiás.
A Secretaria da Controladoria-Geral do Estado de Pernambuco (SCGE-PE) segue divulgando seus passos na implementação do Modelo, registrando avanços rumo ao Nível 2 de maturidade no IA-CM de Auditoria Interna desde 2020, ano em que foi publicada uma apostila didática interna. A última evolução foi identificada por meio de autoavaliação concluída no primeiro semestre de 2025, em comparação com a análise anterior, realizada em 2023. No caso da SCGE-PE, houve um salto grande na institucionalização das atividades essenciais e no que se refere aos macroprocessos, sinalizando que muito em breve, também alcançará o patamar de certificação:
“Avançamos de 73% para 94% na institucionalização das atividades essenciais e de 30% para 80% com relação aos macroprocessos. Ou seja, tanto estão previstos nos normativos, nos processos e nos manuais internos quanto estão em prática pelas equipes de auditoria, resultado de trabalho conjunto”, destacou Daniel Penaforte, coordenador do Grupo de Trabalho.
Aos quatro estados, agregam-se os esforços do Piauí e do Rio Grande do Norte. Em fevereiro de 2025, a Controladoria do Piauí (que, inclusive realizou seu 7º Fórum de Controle Interno no início de novembro), promoveu uma capacitação de três dias, na qual os auditores foram orientados sobre as próximas etapas para aprimorar a qualidade dos relatórios e elevar a maturidade da auditoria interna em direção ao Nível II do IA-CM, sob coordenação de um Comitê composto por nove auditores.

Experiência digna de todo reconhecimento e reprodução é a da Controladoria-Geral do Estado do Rio Grande do Norte (CONTROL-RN), que projeta o atingimento do Nível 2 do IA-CM no ano de 2025 (e do Nível 3, em 2029) e de maneira excepcional, disponibiliza um portal exclusivo para monitoramento dos KPIs e medidas no âmbito do alinhamento aos níveis. Na página encontram-se as identificações dos membros do Comitê de condução, bem como um painel de business inteligence das métricas e documentos referenciais diversos e correlatos do planejamento do setor de auditoria interna.
A Controladoria-Geral do Estado de Alagoas (CGE-AL), que realizará seu primeiro concurso público em 2026 (após anos de expectativa), promoveu em 2023 o primeiro seminário de disseminação interna de conhecimento sobre o IA-CM. Todos os servidores do órgão na ocasião estiveram presentes. Ao longo dos anos, embora o órgão tenha realizado ações de capacitação e demonstre a intenção de adotar o framework, não foi possível encontrar a consolidação do caminho da CGE-AL nesse intuito. Provavelmente, com sua reestruturação futura, haverá alguma mudança de perspectiva. Em adicional, não há informações detalhadas sobre as medidas da Secretaria de Estado da Transparência e Controle de Sergipe relacionadas à certificação do modelo IA-CM. São os únicos dois estados da Região sem previsão estipulada.
Por fim, a Controladoria-Geral do Estado de Minas Gerais (CGE MG) foi a primeira a alcançar um nível superior, o Nível 3, em setembro de 2025. A do Mato Grosso (CGE MT) está na linha. Em paralelo, o Conselho Nacional de Controle Interno (Conaci) divulgou, em outubro de 2025, os 'Entendimentos da Câmara Técnica de Auditoria e IA-CM do Conselho sobre os Macroprocessos-chave (KPA) do Nível 3 do Modelo IA-CM'. O documento consolida interpretações e orientações técnicas construídas pela Câmara Técnica desde 2022, com o objetivo de facilitar a aplicação prática do Modelo de Capacidade de Auditoria Interna (IA-CM) no setor público brasileiro. A publicação oferece uma leitura detalhada de cada macroprocesso-chave, com recomendações e exemplos de evidências que contribuem para o fortalecimento das unidades de auditoria interna governamental.
Vale ponderar que a própria Controladoria-Geral da União (CGU), órgão federal, detém a certificação Nível 2, alcançada no final de 2022. O desafio, portanto, desloca-se principalmente para o amadurecimento dos setores de auditoria das capitais nordestinas. Na verdade, nas capitais de todo o país.
Nessa seara, a capital da Bahia, Salvador, foi a primeira a ser certificada no Nível 2 do IA-CM (em 2024) e a única até o momento. Algo preocupante é que apenas as controladorias do Recife, Fortaleza e São Luís registram iniciativas adicionais de planejamento para seu alcance. A capital pernambucana incluiu em seu 'Plano de Negócio de Auditoria Interna 2025-2026' a certificação até 2026, a Controladoria de Fortaleza revisa seus processos após uma autoavaliação com foco no IA-CM e um novo Plano Tático 2025-2028, e por sua vez, a de São Luís instituiu em uma Portaria de agosto um mecanismo de governança especial para criação de um projeto voltado ao IA-CM. Ou seja, as outra cinco (das nove) capitais permanecem - aparentemente - sem diretrizes de seu desenvolvimento.
As cidades refletem o panorama encontrado pela nova edição do 'Diagnóstico Nacional do Controle Interno', elaborado pelo Conselho Nacional de Controle Interno (Conaci) em parceria com o Banco Mundial Segundo o levantamento, o Índice Sintético de Controle Interno (ISCI) médio dos estados subiu de 0,724 (2020) para 0,822 (2024), um crescimento de 13,54%. Entre os destaques estão justamente o fortalecimento das práticas de governança, o aumento da autonomia técnica das UCCIs e a consolidação de programas de integridade. Já entre as capitais, o ISCI passou de 0,669 para 0,723 no mesmo período – uma elevação de 8,07%, mas distante da capacidade de performance desejável.
Com base em metodologias reconhecidas internacionalmente – como o COSO I e o Modelo de Capacidade de Auditoria Interna (IA-CM) –, o estudo avaliou o nível de maturidade das Unidades Centrais de Controle Interno (UCCI) nos 26 estados, no Distrito Federal e nas 26 capitais brasileiras. Regionalmente, o Centro-Oeste, o Sudeste e o Norte despontaram como as regiões com os maiores índices de maturidade nas UCCIs estaduais (com destaque para o Norte, que saltou de 0,702 para 0,878 no ISCI). A Nordeste foi a única com desempenho geral no 'nível A2', o menor (com 0.733) - mas, o presente texto elucida que o horizonte, mesmo em terras de negligência federativa, é de alinhamento às demais regiões sem demora.

*Texto por Raquel Lins. Criadora do Nordeste Transparente, é Bacharel em Ciência Política com ênfase em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Pernambuco. É especialista em Planejamento e Gestão Pública pela Universidade de Pernambuco e possui MBA em Auditoria e Inovação no Setor Público pela FEA-USP/IRB (2024). Atua em temas relacionados à promoção da transparência e integridade governamental, governo aberto, controle e inovação em políticas públicas - tendo desenvolvido experiência prática ao longo de uma década através da criação do projeto pioneiro Pernambuco Transparente em 2018, visando estimular a compreensão do assunto pela sociedade, e como um de seus resultados, lançado o portal Dados Abertos Pernambuco, plataforma com amplo acervo didático sobre o universo da abertura de dados e reconhecida com voto de aplauso pela Câmara Municipal do Recife.
[+ Currículo Lattes]
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