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Regiões Metropolitanas das Capitais Nordestinas atingem nível "Muito Alto" no IDHM/PNUD, Índice de Desenvolvimento Humano local da ONU - mulheres já lideram elevação do Ranking

  • Foto do escritor: Pernambuco Transparente
    Pernambuco Transparente
  • 29 de mai.
  • 13 min de leitura

Atualizado: 2 de jun.

O Brasil entrou oficialmente, pela primeira vez na história, no grupo de países considerados de muito alto desenvolvimento humano. Dados do Radar IDHM, divulgados pelo braço do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil, revelam que o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal do país atingiu a marca de 0,805. De acordo com o relatório, o resultado traduz o acumulado de políticas públicas nas áreas de saúde, educação e geração de renda, superando um tanto dos impactos econômicos e sociais da pandemia, mas não inteiramente.


O IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal), do PNUD Brasil, avalia o progresso de longo prazo dos municípios brasileiros considerando apenas os três pilares essenciais utilizados para o cálculo global do IDH dos países no próprio relatório anual da instituição: saúde (expectativa de vida), educação (escolaridade e fluxo escolar) e renda (PIB per capita). Ao mesmo tempo que habilita antecipar a média do país por adotar a metodologia equivalente, dois grandes novos fatores surpreenderam e chamaram atenção pelas inflexões relevantes no horizonte da prosperidade nacional: o desempenho das regiões metropolitanas do Nordeste (que historicamente apareciam abaixo da média nacional e passaram a puxar o índice brasileiro para cima), e o das mulheres, superando o dos homens não só no da longevidade, mas no eixo da educação.


O Nordeste muda o cenário histórico do desenvolvimento humano brasileiro com algo inédito: sete (das nove) regiões metropolitanas nordestinas já aparecem com IDH considerado “muito alto”, faixa acima de 0,800. Conforme a coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do PNUD no Brasil, Betina Barbosa, esses territórios antes eram vistos como áreas que puxavam a média brasileira para baixo, mas agora ajudam o país a alcançar níveis mais altos de desenvolvimento. Vale salientar em adendo, que as duas restantes, Maceió e Fortaleza, lograram 0,776 e 0,796 respectivamente - estando muito próximas, portanto, da mudança de faixa.


Sete regiões metropolitanas nordestinas alcançaram IDH “muito alto” (Tabela Portal NE9)
Sete regiões metropolitanas nordestinas alcançaram IDH “muito alto” (Tabela Portal NE9)

Levando em conta o panorama dos estados por completo, Alagoas (0,746), Piauí (0,764) e Rio Grande do Norte (0,778) foram os entes onde o desenvolvimento humano mais cresceu desde 2012 (início do IDHM). A Bahia chegou a 0,759; o Ceará a 0,773; a Paraíba a 0,760; Pernambuco a 0,767; e Sergipe a 0,761. O Maranhão foi o último da região e do país, mas com 0,745, dentro da faixa prévia, de 'alto desenvolvimento humano'. A posição relativa entre todos os estados pode ser vista neste mapa aqui.



O governador Rafael Fonteles afirmou que o avanço do Piauí no IDHM (0,764) é fruto da continuidade das políticas públicas e de um planejamento voltado para reduzir desigualdades intrarregionais. Segundo ele, a dificuldade do estado é ainda maior por possuir uma das maiores populações rurais do país. O Maranhão é o único estado do Nordeste que se equipara em nível de ruralidade (com cerca de 29% da população vivendo no campo, o estado maranhense tem um perfil demográfico muito próximo ao piauiense, que lidera o ranking nacional com 31,1% de população rural):

O Piauí é um estado majoritariamente rural, o que torna mais desafiador levar políticas de educação, saúde e renda para todas as regiões. Essa evolução significa muito para o desenvolvimento do nosso estado”, destacou.

Desempenho do Piauí foi um dos destaques no IDHM: Foto Oficial da solenidade de divulgação em Brasília
Desempenho do Piauí foi um dos destaques no IDHM: Foto Oficial da solenidade de divulgação em Brasília

Apesar do avanço histórico, o relatório alerta que o progresso ocorre de forma desigual no território nacional. Entre homens e mulheres, notadamente, os indicadores expõem disparidades, sobretudo quando o IDHM é ajustado pela renda do trabalho. O índice dos homens é de 0,802, enquanto o das mulheres é de 0,798. No entanto, a liderança dos indicadores de educação e longevidade passou a ser das mulheres - o da expectativa de vida acentuando-se para a impressionante média de 0,915 (em círculo amarelo na imagem).


Mulheres já lideram o avanço do IDHM em dois dos três indicadores: Educação e Longevidade
Mulheres já lideram o avanço do IDHM em dois dos três indicadores: Educação e Longevidade

Não é preciso 'quebrar muito a cabeça' para entender os números: a metamorfose dos hábitos com a universalização do ensino básico explica tal evolução. Todavia, enquanto as mulheres usam as horas livres para participar de clubes de leitura e oportunamente leem livros ou dialogam sobre sua condição existencial (maternidade, menopausa e sexualidade feminina), os homens parecem estar mais focados em jogos, ou apostas on-line (o vício em apostas virtuais afeta principalmente o público masculino, que representa cerca de 66% dos apostadores).


No vídeo a seguir, são explorados os dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024 e Panorama de Consumo de Livros 2025, que mostram 49% das mulheres como leitoras versus 44% dos homens, com elas representando 62% dos compradores de mais de 10 livros por ano. A mudança é tão saliente que o mercado editorial agora volta-se mais, inclusive, para atender às preferências de seu novo maior público consumidor.



Outras pesquisas, que averiguam a fundo hábitos de saúde nas regiões metropolitanas (como uma recente dos institutos IPSOS/Ipec), revelam que o público masculino no Grande Recife (para ilustrar), está entre os que menos realizam acompanhamentos solicitados por médicos. Na RMR, a resistência masculina em retornar ao médico reflete uma tendência nacional: apenas 38% dos homens na Região Metropolitana insistem em fazer exames após a primeira recomendação médica. Essa fuga seria alimentada por fatores culturais de invulnerabilidade e pela falta de tempo, o que agrava doenças silenciosas. A cultura de “só ir ao médico quando sente algo” persiste entre os homens, especialmente no Nordeste, onde o comportamento é ainda mais presente. Nacionalmente, 39% deles só procuram atendimento diante de sintomas incômodos, enquanto 49% das mulheres realizam 'check-ups' anuais mesmo sem sinais de doença, uma tendência também registrada na capital pernambucana.



O desconhecimento sobre fatores de risco agrava o quadro e quase metade dos homens brasileiros não sabe que o câncer de próstata é uma das principais causas de morte masculina no país, com apenas 40% reconhecendo a obesidade como um fator de risco. Apesar da alta incidência, as chances de cura chegam a até 95% quando o diagnóstico é feito ainda nos estágios iniciais (o toque retal, considerado crucial quando o Antígeno Prostático Específico/PSA apresenta alterações, também segue cercado de desinformação e 70% dos entrevistados não sabem que o exame é necessário mesmo quando o PSA está normal). A associação da doença com homens negros, comprovada pela literatura científica, é reconhecida por somente 15% dos entrevistados.


A pesquisa evidencia um dos diversos aspectos nefastos da “feminização do cuidado”, com 72% das mulheres brasileiras afirmando ser as responsáveis pela saúde da família, e 25% dos homens mencionando (ainda) suas parceiras como responsáveis pelo acompanhamento médico. Entre jovens de 18 a 24 anos, 41% citam a mãe como a principal referência para cuidados de saúde, e apenas 3% falam do pai.


O câncer de próstata não gera sintoma nenhum, então faz com que o diagnóstico seja retardado e, consequentemente, o homem perca a oportunidade de tratar de uma maneira menos invasiva e, muitas vezes, até fique com sequela da doença ou de um tratamento mais agressivo que precisou ser utilizado”, explica Fernando Gurgel, presidente da Sociedade de Radiologia de Pernambuco ao Diário de Pernambuco.

Esse entrave do forte fator cultural talvez ajude a explicar por que o indicador de longevidade 'travou' sua evolução, com ascensão lenta ao longo dos últimos anos: não se contesta mais tanto da presença de infraestrutura de saúde (uma vez que ela pode ser de alguma forma encontrada de maneira geral), ou sequer das elevadas taxas de homicídios, mas do comportamento de uma parcela enorme da população que não possui os hábitos adequados de cuidados com a própria saúde e negligencia a frequência da realização de consultas e exames (algo devidamente apurado na pesquisa Ipsos e em outros levantamentos do SUS). Afinal, autocuidado é intransferível: ninguém pode ir ao médico por nós, fazer exames por nós, cirurgias ou tratamentos por nós.


Somos, enfim, absolutamente todos, vulneráveis ao adoecimento e envelhecimento e carecemos de acompanhamento permanente. É da condição humana - achar-se acima disso é, inevitavelmente, acelerar o próprio fim.


Ademais, a resistência masculina à psicoterapia também é uma realidade estatística: cerca de 80% dos homens brasileiros nunca frequentaram um psicólogo. Apenas um terço dos atendimentos psicológicos correspondiam a pacientes do sexo masculino antes da pandemia, e a busca costuma ocorrer tardiamente. A mudança de mentalidade entre gerações, não obstante, se sobressai: a faixa etária que mais frequenta a terapia regularmente é a dos homens de 25 anos aos 34 anos, que representam 21%. A menor é a dos homens 45 anos ou mais, que eram de apenas 13%. Se porventura tal benefício pudesse ser estimulado desde a escola faria diferença, mas apenas 15,7% das escolas públicas contam com a presença de psicólogos educacionais, segundo matéria com dados do Censo da Educação Básica (INEP).


Não gratuitamente, no Brasil, 80% das vítimas de suicídios são homens; a população carcerária é predominantemente masculina (96% dos presos); e aproximadamente 84% da população em situação de rua é composta por homens. Esses dados reverberam uma realidade nacional de vulnerabilidade que atinge majoritariamente homens adultos e negros. Estudos do Ipea apontam que os motivos mais frequentes para a ida às ruas são a ruptura de vínculos familiares e o desemprego/perda de renda, em muitos casos atrelados à dependência química e problemas de saúde mental não tratados, desafios comuns que podem agravar a situação (os problemas familiares estão associados a um tempo de permanência a maior). Mais de 60% dessa população está concentrada na Região Sudeste, seguida pela Região Nordeste.


O Brasil, contudo, é o único país da América Latina com uma política de saúde específica para a população masculina: a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH). Desde 2009 ela prevê ações de saúde em lugares amplamente frequentados por homens: campos de futebol, bares, fábricas, oficinas, praças, obras da construção civil, etc - sinalizando, na verdade, que a missão de virar essa mentalidade constrangedora é de toda a sociedade, perpassando instituições públicas ou privadas.


Por fim, a desigualdade também se manifesta entre homens e mulheres quando o índice é ajustado pela renda do trabalho. Nesse quesito, o impulso ao crescimento econômico deve aumentar com menos diferença entre gêneros no espaço laboral: o FMI é uma instituição financeira que defende reformas como expansão de creches, ajustes no Bolsa Família e redução das disparidades salariais no país.



No que diz respeito às políticas nacionais de transferência de renda, cerca de 5,1 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família entre 2023 e meados de 2026. Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), o desligamento ocorreu principalmente pela superação da pobreza, já que esses beneficiários conseguiram ingressar no mercado de trabalho formal ou abriram o próprio negócio.


A saída segura dessas famílias foi encorajada pela Regra de Proteção, um mecanismo que garante o pagamento parcial do benefício para quem consegue aumentar a renda. O Sebrae também aponta que mais de 5,9 milhões de inscritos no Cadastro Único são hoje microempreendedores. Estima-se que 1,3 milhão de pessoas atualmente trabalham para empreendedores que um dia foram beneficiários do programa: a formalização como MEI atua como uma das principais portas de saída e superação da pobreza, desencadeando a independência financeira.



É indispensável ressaltar que no Brasil, mais da metade dos lares (51,7%) é chefiada por mulheres, sendo que muitas dessas famílias são monoparentais e encontram-se em situação de extrema vulnerabilidade: as mães solo compõem justamente a maioria dos lares beneficiários do Bolsa Família. A estrutura do programa, aliás, prioriza as mulheres como titulares do benefício para garantir que a renda seja direcionada diretamente ao cuidado e à sobrevivência da família, e portanto, mulheres correspondem a aproximadamente 84% das pessoas responsáveis por lares cadastrados e que recebem o benefício. Na análise do perfil, observa-se em dados oficiais do Boletim institucional que 74,8% são mulheres negras (sendo 66% pardas e 8,8% pretas), seguidas por 23% de mulheres brancas, enquanto mulheres indígenas representam 1,2% e mulheres amarelas 0,5%.


As condicionalidades do Programa Bolsa Família são engrenagens indutoras que asseguram o acesso às demais políticas complementares vitais de assistência social, saúde e educação para essa camada da população. Na saúde, as condicionalidades estão relacionadas à atenção das crianças e mulheres por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Na educação, por sua vez, o acompanhamento é realizado por meio da frequência escolar das crianças e adolescentes, servindo como instrumento para interromper o ciclo intergeracional da pobreza, ao incentivar a matrícula e prevenir a evasão e o abandono escolar.


A taxa de acompanhamento educacional total é de 89,41% (P5 – 2025), evidenciando o compromisso do PBF no combate à evasão escolar, à exploração do trabalho infantil e ao rompimento do ciclo intergeracional da pobreza. Os efeitos de longo prazo, portanto, contribuem para que as novas gerações tenham um futuro distinto do das próprias mães, repercussão já comprovada por pesquisas acadêmicas. Por isso, compreensivelmente, as condições relacionadas à educação para aderir ao programa Bolsa Família foram apontadas como decisivas para que o Brasil atingisse o maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da história. Dos três indicadores, o da educação foi o que precisamente mais puxou o índice para cima: em 2012, esse era o pior indicador nacional, com pontuação de 0,679, e neste balanço se tornou o segundo, com 0,798 (aumento superior a 0,1 ponto).


Ainda assim, ponderando que é um auxílio para uma família, sendo um valor pequeno quando repartido para a sobrevivência de mais de um indivíduo, muitos estados do país e do Nordeste passaram a suplementar os programas federais com outros locais, o que não pode ser desconsiderado. O novo programa Mães de Pernambuco, por exemplo (para mencionar um), representa uma estratégia governamental extra para o fortalecimento da rede de proteção social e para o combate imediato à vulnerabilidade extrema na primeira infância. Ao garantir a transferência direta de renda similarmente para as cem mil mulheres chefes de família em situação de pior fragilidade socioeconômica e que sejam gestantes, mães ou responsáveis por crianças de 0 a 6 anos (72 meses), a iniciativa opera cirurgicamente na segurança alimentar e no bem-estar de milhares de crianças que dependem desse amparo nos seus primeiros anos de vida.


Hoje, o país conta com uma Lei de Igualdade Salarial; um programa como o Bolsa Família, reconhecido e consolidado ao longo de vários anos de aplicação e fiscalização pelo controle da sociedade (social) ou interno e externo por auditorias da CGU, do TCU ou conjuntas (pelas Redes de Controle); além de programas locais e o início da materialização de uma demanda tão antiga, porém mais viável de ser concretizada e efetivada sobretudo diante dos baixos índices de natalidade contemporâneos: a construção das creches. Com filhos protegidos, as mães podem voltar-se aos próprios caminhos, e então, empreender, trabalhar com carteira assinada, ou outros destinos - produzir a tão almejada autonomia financeira.


Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) constatou que o programa Bolsa Família não reduz a participação das mulheres na força de trabalho, a não ser para aquelas com crianças de até seis anos. São os filhos pequenos que acabam conduzindo essas mulheres para fora do mercado de trabalho. Nesse caso, há uma menor participação feminina por conta das responsabilidades em casa, tarefas domésticas e cuidado com a família (segundo o FMI, metade deixa de trabalhar fora até dois anos depois do nascimento do primeiro filho). O estudo reforça ainda dados recentes do IPEA que as brasileiras gastam em média dez horas a mais por semana no cuidado doméstico não remunerado do que os homens. A solução, aquiesce a pesquisa, é exatamente ampliar o acesso a creches, incentivar o trabalho remunerado e resolver as diferenças salariais.



Nessa longa trajetória do IDHM, a disparidade racial diminuiu, mas permanece crítica: a população branca alcançou o patamar de muito alto desenvolvimento, enquanto a população negra situa-se uma faixa abaixo, classificada em alto desenvolvimento. Mas, tal conjuntura atesta que políticas públicas voltadas à inclusão social vêm contribuindo para reduzir desigualdades históricas. Quando analisados os recortes populacionais, o levantamento demarca que o IDH da população branca é de 0,851, acima da média nacional, enquanto o da população negra é de 0,774. Em 2021, entretanto, estimava-se que a população negra levaria 35 anos para alcançar o mesmo IDH da população branca. Em 2024, essa projeção caiu para 26 anos.


Em conclusão, o relatório aponta que as desigualdades raciais, de gênero e de renda regionais ainda permanecem significativas no país. Quando ajustado pela desigualdade, o IDHM brasileiro cai de 0,805 para 0,641, indicando que parte da população ainda vive distante da média nacional.


Será que não existe pobreza que resista a 14 horas de trabalho? A pergunta, repetida como senso comum, inclusive por pretensos especialistas, evidencia o profundo desconhecimento que o Brasil detém da sua elevada intensidade de jornada de trabalho, com média nacional de 43,4 horas semanais, valor muito próximo do limite legal de 44 horas. Estima-se que cerca de 56% dos trabalhadores brasileiros estejam em jornada longa acima de 44 horas semanais. O Norte e o Nordeste do Brasil concentram os maiores níveis de intensidade laboral, com estados ultrapassando 45 horas médias semanais e mais de 70% dos trabalhadores em jornadas longas, cenário associado à maior informalidade, conta própria e menor rendimento médio do mercado de trabalho regional e industrialização.



Compreender a média de horas trabalhadas entre países ajuda a reconhecer o padrão do tempo inscrito nas estruturas que organizam a divisão internacional do trabalho, e que de forma semelhante, está espelhada no interior dos países. Jornadas superiores a 45 horas concentram-se majoritariamente na periferia do capitalismo, onde o trabalho prolongado também acompanha salários baixos e proteção frágil. No Brasil, a média próxima de 38 horas oculta a regionalidade da escala 6x1, sobretudo ao cotidiano das cidades do Norte e Nordeste, em atividades como nos setores de comércio e serviços.



Convenientemente, após longa pressão cidadã, a proposta do fim da Escala 6x1 avançou no Congresso Nacional com aprovação, por ampla maioria na Câmara dos Deputados, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) com redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas com manutenção salarial. Se a mudança for aprovada após novo rito de debate no Senado, provavelmente, as jornadas mais equilibradas poderão contribuir para acelerar a melhoria dos indicadores de educação e longevidade nos próximos anos (particularmente nas regiões Norte e Nordeste, onde há menos horas de descanso) permitindo quem sabe, que as famílias possam até mesmo adotar o hábito da leitura: mais da metade dos pais não leem para seus filhos, o que tem imenso impacto no potencial de progresso educacional, em todos os campos do conhecimento e até na regulação emocional.



Para a economista do PNUD, sobra um problema de rumo para o debate sobre futuro. "Qual vai ser a economia do futuro do Brasil? De que forma ela vai ser inclusiva? De que forma nós vamos organizar a macroeconomia, a economia monetária brasileira para que ela seja inclusiva?", questionou Barbosa durante a apresentação dos resultados.


Este artigo, em suma, reuniu esclarecimentos sobre os fatores que permitiram o sucesso da educação, e no campo da longevidade, o que poderia ser conquistado 'somente' com o incentivo à mudança cultural de hábitos masculinos, bem como algumas interseções com a questão da renda. Esta última, no entanto, como interroga a representante do órgão da ONU, é o grande mistério - e desafio - adiante, nestes tempos tão incertos de tecnologias disruptivas e transformações nebulosas que seguem remodelando, dia após dia, as formas de viver e de trabalhar. Não importa o rumo, o mais fundamental é não perder de perspectiva que qualquer que seja, nossos hábitos coletivos (e individuais) sempre definirão os limites de nosso destino.




*Texto por Raquel Lins. Criadora do Nordeste Transparente, é Bacharel em Ciência Política com ênfase em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Pernambuco. É especialista em Planejamento e Gestão Pública pela Universidade de Pernambuco e possui MBA em Auditoria e Inovação no Setor Público pela FEA-USP/IRB (2024). Atua em temas relacionados à promoção da transparência e integridade governamental, governo aberto, controle e inovação em políticas públicas - tendo desenvolvido experiência prática ao longo de uma década através da criação do projeto pioneiro Pernambuco Transparente em 2018, visando estimular a compreensão do assunto pela sociedade, e como um de seus resultados, lançado o portal Dados Abertos Pernambuco, plataforma com amplo acervo didático sobre o universo da abertura de dados e reconhecida com voto de aplauso pela Câmara Municipal do Recife. 



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